sexta-feira, 11 de abril de 2008

Vidro na garganta, faca no ouvido e tiro na cara

Aquele sorriso não lhe caía bem. Trazia consigo algo de sarcástico que, combinado com uma evidente falta de motivo para existir, me deixou um pouco assustado. "Boa noite", falei enquanto passava a toalha no balcão despretensiosamente. Nem coragem de falar olhando para o sujeito eu tive. "Duas cervejas", ele foi dizendo sem nem me olhar também, enquanto se escorava de costas pra mim.

- Entendo. Mas como você pode saber que ele não lhe olhou se você também não estava olhando?

Era um desses sujeitos arrogantes, que não olham pra ninguém e, quando olham, é porque algo está muito errado. Continuando: alguém assim, como é de se imaginar, estava sozinho. Desde o momento que entrou no bar, passeou um pouco, pôs e tirou as mãos do bolso algumas vezes e foi ao banheiro outras tantas... como eu disse, ele não inspirava muita confiança. Sempre que podia, eu o observava um pouco. Mas o que me deixou cabreiro mesmo foi essa história de duas cervejas. Ele era só um, não era? Então pra quê pedir duas? Duas de uma vez!

- Você deu as duas?

Dei. Ele pagou com uma nota de vinte. Se eu desse uma só, não iria ter troco e, acredite, você não ia querer negociar com um tipo daqueles. Peguei duas garrafas e um abridor. Abri uma só e fui atender os outros clientes. "Você não vai abrir a outra?", ele perguntou enquanto eu ia para o outro lado. Fingi que não escutei, pois a música estava alta e isso acontece bastante nesses casos. Além do mais, abrir duas cervejas ao mesmo tempo para alguém é algo meio esquisito, mas como sou um cara tranqüilo, preferi deixar pra lá, sabe como é. Olhando assim, meio de espreita, vi o elemento saindo com a que abri, deixando a fechada em cima do balcão, mesmo tendo pago por ela.

- O que você fez?

Bom, já que ele não queria e o bar não ia ter prejuízo mesmo, resolvi pegar a cerveja pra mim. Na hora pareceu uma boa idéia. A vantagem do meu trabalho é que beber em serviço é quase uma obrigação. Eu só havia dado uns dois ou três goles, quando vi aqueles olhos malignos na minha direção. Ele foi tirar satisfação por eu estar tomando a cerveja "dele". Ora, o cidadão vem, pede duas cervejas, quer abrir as duas, deixa uma no balcão e vem reclamar porque eu resolvi não disperdiçar? Cá entre nós, acho que ele usou a cerveja fechada como pretexto para me agredir.

- E era isso mesmo?

Eu não sou um cara preconceituoso, mas esse aí se mostrou pior ainda do que transparecia. Você tinha que ouvir as coisas que ele dizia pra mim. Até ofereci a cerveja de volta, mas ele queria mesmo era briga. Disse que não queria mais depois que um desconhecido como eu havia posto a boca nela, que queria outra. Um alcóolatra, falando de uma garrafa como se fosse namorada dele ou coisa do tipo! Agora convenhamos: sair de uma vez de uma situação em que o bar não tinha prejuízo e eu tinha cerveja grátis para outra, em que o bar perdia uma cerveja e a única coisa que eu ganhava era gritos de um qualquer, foi meio que um baque. Me acalmei e resolvi me impôr devolvendo a ele a cerveja que eu vinha tomando, era um meio termo justo, você há de concordar.

- Como você devolveu?

Quebrei a ponta da garrafa na parede e enfiei os cacos que ficaram na minha mão bem fundo na garganta dele. Saiu muito sangue e todo mundo viu. O desgraçado até olhou pra mim, não entendi bem porque. A música parou e as pessoas abriram uma roda em volta. Foi quando eu tirei os cacos de vidro da garganta dele e afundei naquela cara nojenta. Sabe, eu não sou de torturar quem já estou matando, mas é que aquele sujeitinho realmente me tirou do sério. Eu sei porque você está me olhando assim, deve estar imaginando o que ele foi fazer quando saiu do balcão, porque pediu duas cervejas e porque quis abrir as duas.

- Ele não estava só. Foi ao bar comprar uma cerveja para ele e outra pro amigo. Saiu do balcão para entregar a cerveja dele e, quando voltou, bem, você já sabe.

Eu não minto, ele realmente estava só. Uma meia hora antes, o tal amigo invadiu a cozinha sem permissão e eu enfiei uma faca no ouvido dele. Tavez o desgraçado tenha descoberto que matei o amigo dele e quis descontar em mim. Assassino de uma figa...

- Impossível, o amigo foi interrogado agora a pouco na sala ao lado. Foi liberado, inclusive.

Olha, mais uma vez, não vou mentir pra você, mas... se isso for mesmo verdade, acho que matei o cara errado, seu policial. Você acha que isso pode complicar a minha situação de alguma maneira?

- Qual dos dois era o errado?

Não sei. Como você já sabe, eram dois. Eu não procurava encrenca naquele dia. Bom... não naquela noite. Mas um entrou na minha cozinha, é o da faca no ouvido. O do vidro na garganta usou a garrafa fechada para me confrontar. Os dois pareciam ser os certos, deve haver algo que não estou entendendo.

- Bem, éramos três.


2 comentários:

Daniella disse...

Moço,
Genial esse interlocutor... Um texto supreendente e que fixa a atenção do leitor...
Cadê os versos??
Bom demais...
Bora organizar o teu livro??
Bjoo!

raquelholanda disse...

Ei, tenho um texto que se assemelha a este teu, um dia te mostro. bj