quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Vinte e três

- Quantos anos você tem?
- Vinte e três.
- Vai morrer com quarenta e seis?
- Vou?
- Perguntei quantos anos você tem, não quantos anos você não tem mais.
- Às vezes sinto que vivi uns oitenta e que apenas me observo de lá, caçoando da minha saudosa juventude. Noutras, tenho treze e me envergonho do fragmento de multidão que me tornei.
- E nesse momento?
- Nesse momento sou a memória vigorosa do velho vagaroso no andador e a decadência do menino que escondeu sua dentadura. Também observo os dois.
- Mas viver não é só contemplar! Você se multiplica por três para justificar não ser nenhum, não vê como é tolo isso?
- Viver sem ser tolo é impossível. O menino de treze pregou uma peça no velho de oitenta por considerá-lo o quê? Tolo! E o que ele acha da minha calça comprida, da minha carteira assinada e da minha rubrica indecifrável? Tudo tolice, por mais que minha independência e a experiência do velhote provoquem nele certa admiração. Agora, se você me perguntar o que acho desse fedelho, minha resposta vai ser a mesma, e assim por diante. De qualquer ângulo, sou um tolo admirável, pelo menos para mim. E orgulhar esses dois me consome muito.
- Eu acho que você tem vergonha de si mesmo, daí todo esse auto-deboche-sabotagem que te habita. Você nunca foi um velho de oitenta e mal lembra de ter sido um moleque de treze. Pra mim, você é um velho moleque de vinte e três que sente por si toda a repulsa e apreço do mundo ao mesmo tempo, mas que não sabe lidar com isso.
- Fala como se eu tivesse culpa...
- E tem, sabe que tem. Até porque não pode transferir essa culpa pra mais ninguém. Ao invés disso, transfere pra esses alteregos aí, que jamais ousariam lhe desmentir.
- Culpa de quê mesmo?
- De atrofiar a alma, rapaz!
- Mas ainda tenho muitos anos...
- Mesmo tendo tão poucos?


2 comentários:

Danilo Castro disse...

Olha, fazia tempo que não lia algo tão bom num blog.

Tô há algum tempo parado na escrita, mas esse blog me deu um "up".

É um cuspe no meio da rua, virgem e brutal. É o cuspe mais poético que já li.

Muito bom.

por Allan Diniz disse...

que lindo, caio. Depois dessa vou consumir mais tuas postagens antigas. Felicidades !!!