- Tentar lhe definir seria como tentar definir o amor. E quero definir o amor na sentença mais extensa e prolixa que puder, que me custe a vida inteira até eu enfim terminar de proferi-la, o último pulsar do meu coração como ponto final. E quando dicionários forem impressos com mil páginas só para a letra A, espero que um dos sinônimos, o mais extenso e prolixo de todos, seja criado por você.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Engordando dicionários
- Tentar lhe definir seria como tentar definir o amor. E quero definir o amor na sentença mais extensa e prolixa que puder, que me custe a vida inteira até eu enfim terminar de proferi-la, o último pulsar do meu coração como ponto final. E quando dicionários forem impressos com mil páginas só para a letra A, espero que um dos sinônimos, o mais extenso e prolixo de todos, seja criado por você.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Castelo de areia molhada
Como gosto de você, minha querida. Seu cabelo escuro tinindo tão claro sob o sol e também sob ele o cheiro de praia que a pele exala. A praia que tem o cheiro da sua pele e eu, que rolo pela areia como um grão sorridente e debilóide que o vento leva e o mar traz. Para onde nós vamos depois daqui? Como nós vamos? Pés pela calçada, pneus pela estrada, ondas pelo oceano, mãos dadas pelo pensamento? Para onde vamos depois daqui?
Me dê suas mãos, que lhe dou meu coração. Me dê um tempo, que lhe dou a eternidade. É tudo chantagem apaixonada, mas ainda tenho aquele beijo que você me deu e nunca devolvi. Vem, vou te levar pra passear nas ruínas do meu castelo de areia. Deixo você brincar com os cardumes adestrados e escolher o búzio que achar mais bonito para levar para... para onde vamos mesmo depois daqui? Na verdade, não me importo, desde que sejam quatro as pegadas pela areia.
Se chover e o sol não mais queimar seu cheiro ou tingir seu cabelo, sei que esse charme todo, doce que é, vai derreter. Você vai mudar, que eu sei. Como gosto de você, minha querida, mas pode mudar. As pessoas mudam vida afora e se você não mudasse, não seria uma pessoa, não seria essa pessoa. Mude se quiser, mude na incansável busca de se parecer consigo mesma. Sinta-se à vontade. O importante é sentir-se. Eu também mudaria tudo por você, menos a mim. Para onde vamos depois? Seremos os mesmos lá ou seremos outros aqui? Para onde vamos depois daqui?
sábado, 27 de março de 2010
Guardanapo
É o talvez, é o será, é o poder, é o pudor, é a dor. É o vento lascivo que acaricia sem cortejar, é o sussurro da brisa espalhando segredos torpes, é um pêlo que se arrepia sozinho e envergonhado no meio do braço. É a agonia de dizer, é o pavor de escutar, é a paciência de uma folha de papel. É a eternidade discreta que habita as coisas, tudo que passa, tudo que é descartável. É a obra-prima num guardanapo, é a boca suja.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Dormência
I.
Ao se dar conta de que as roupas da noite anterior ainda o vestiam, desabotoou os dois botões da camisa que insistiam em permanecer cumprindo sua função, mas não a tirou. Arrancou os tênis sem desamarrá-los, mas manteve as meias, assim como as calças, pois o trabalho que teria ao se levantar para tirá-las não compensaria. Deitou outra vez, mas sem dormir.
O par de luvas vermelhas de repente se transformou num exército rubro especialmente treinado para deixar seu rosto igualmente vermelho. Já se sentia roxo quando o homem de blusa listrada interveio. Sentou, cuspiu, bebeu, cuspiu, ouviu o homem de boina, levantou. Seu exército não foi junto e precisou encarar o outro sozinho com apenas duas de suas luvas. Estava vermelho.
"Sinto sono ao acordar e disposição ao ir para a cama", disse ou pensou em dizer enquanto fazia uma careta como a de alguém que descobre um segredo terrível sobre outra pessoa. Talvez sono fosse como sexo, que tem quem pense que quanto mais clandestino melhor. Lembrou de cada aula que perdeu com o rosto grudado à carteira, cada atraso que programou debaixo daquele mesmo lençol no qual estava sentado, cada telefone que deixou tocar, cada campainha que deixou de atender, cada desculpa que arquitetou dentro das pálpebras. Não haveria masturbação para aquilo e talvez por isso se empenhasse mais arduamente em realizar os anseios do sono que os da libido. E subitamente pervertido pelo sono, se deixou despejar sobre o colchão mais uma vez.
***
As cordas do ringue lhe amparavam o corpo, como se permanecer de pé fosse menos doloroso. Bem intencionadas, mas burras como cordas, insistiam em jogá-lo nos punhos agitados do adversário. Queria cair, mas não conseguia. Corda, soco, corda, soco. Tontura. Soco. Não. Eram as cordas. Queria cair, mas não sabia para que lado ficava o chão.
***
***
Mau hálito, ramelas, cara amassada, e mau humor estavam todos de pé.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
A saudade num copo d´água
Ele a tem e preserva cada gota reunida ali num abraço distoante de toda a sua rigidez e imobilidade. Queria poder nadar nela e não poder é sua maior frustração. Uma gota a mais e eles se entreolham enquanto ela se debate de um canto ao outro. Ele finge não ver enquanto deseja mesmo se afogar, ela finge não se afogar enquanto corre para todos os lados em busca de uma saída. Mas o abraço dele a conforta outra vez e promete que sempre haverá espaço para ela entre a boca quase quadrada e a base quase redonda. Ela promete que estará sempre ali.
Pra quê falar de solidão se posso falar de uma gota d´água? A cada nova que surge, o copo fica menor, seu abraço cada vez mais desesperado, sua base cada vez menos convincente. A água tenta sem sucesso desmanchar seus contornos, esticar as fronteiras de vidro e mostrar que ele não cumpriu sua promessa. Ele ainda quer ser parte dela, mas continua sem saber nadar. Se sente tão forasteiro quanto aquelas malditas gotas que sempre tanto o diminuíram, mas, ao contrário delas, não consegue que sejam um só. Ela se sente mais sufocada à medida que ele se sente mais encurralado.
Janela aberta, céu fechado, a chuva entra mal-educada trazendo mais dela para dentro dele, que vê sua própria promessa fugir da boca quase quadrada pra fora. Afinal, estava diminuído como jamais pensou que estaria, enquanto ela, sufocada e decepcionada, fugia transbordante de dentro dele e o deixava inundado de lágrimas. As nuvens caçoaram do seu sofrimento, mas ele sabia que se havia encontrado até uma gota d´água maior que um dilúvio, poderia ser capaz de se tornar um copo d´água maior até que uma nuvem.
Sem a chuva, ele se sentia enorme outra vez. Nadar ainda lhe era impossível, mas podia voar, como a maior das nuvens, carregar toda a água do mundo. As lágrimas haviam secado, mas um desespero mudo lhe dominava, pois, à medida que ia se sentindo cada vez maior, se sentia cada vez mais vazio.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Vinte e três
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
O colecionador de máscaras
"Ninguém quer saber de tudo, nem ver tudo. Ninguém quer usar uma máscara de lua cheia, porque aquilo nem parece uma lua e dane-se o fato de que ela na verdade nunca seca. Aquilo não é uma lua, isso é!", e apontou para a máscara que mantinha no rosto. Voltou ao armário, guardou sua lua no lugar de onde a tirou e dessa vez pegou a que estava pendurada logo ao lado. "Agora, se não se importa, vou aproveitar essa noite de lua cheia pra virar um lobisomem, tudo bem?".
Sentado à beira da janela, se deixava ser contemplado pelos transeuntes, intrigados pela cena pouco convencional que aquele lobisomem lhes proporcionava. "A segunda coisa que você tem que saber é que não se conhece uma pessoa pelo que ela mostra, e sim pelo que ela esconde", explicou com a voz levemente abafada pela máscara que lhe tapava a boca. "Se somos capazes de esconder até a lua quase toda só pra pensar que ela é mais caprichada do que realmente é, é porque treinamos antes em nós mesmos para que pensem que somos mais crescentes, minguantes ou o que seja. É como se fôssemos todos luas cheias disputando um lugar ao sol".
Fechou a janela, tirou a máscara, devolveu ao armário. "Agora vê se escolhe logo alguma aí que eu já tô querendo fechar".
domingo, 20 de setembro de 2009
Ao vivo
Orgulhamos egos, magoamos sorrisos, caímos, levantamos, perdemos migalhas de pão pelo caminho, vimos o mundo por um filtro de grades, vimos o mundo sem filtro nenhum e não sabemos como foi pior. Despistamos nossas sombras, mordemos panos, levamos choques e ainda existe uma alfândega entre nós. Não entenderam o que explicamos nem entendemos o que nos explicaram. Talvez o espelho já esteja quebrado e os cacos recolhidos, amontoados uns sobre os outros como se fossem uma coisa só. Como se fossem uma coisa só e não se refletissem contradizendo uns aos outros no meio dessa multidão solitária. Se somos uma casa de espelhos mal-assombrada? Acho que sim. E acho que somos nós que a assombramos.
Sim, entendo que o espelho é imaginário, assim como você. Mas estamos ao vivo, não há tempo para nos fantasiarmos de reais. Se o espelho não existe, então quem é aquele sujeito tão familiar refletido nele? Você é a imaginação imaginária de um eu imaginário, se conforme de uma vez por todas com isso. E com o fato de estarmos ao vivo e sem migalhas para marcar o caminho de volta. Ao invés disso, só temos cacos de vidro e não queremos voltar pisando sobre eles enquanto refletem a dor em nossos pés. É o espelho a se vingar, imaginário uma ova. Só podemos ir em frente, desgovernados, escrevendo e desenhando coisas na parede do quarto sem a disposição para jamais pintá-la de novo. O bom é lembrar, o ruim é do quê.
E quando você for embora, favor deixar uma lembrança qualquer, um recado disforme e cheio de rasuras na parede, para que eu possa ficar imaginando como ele foi parar ali e quem o deixou. E assim vai restar um caco seu no meio dos meus intermináveis e incomeçáveis.
Estamos vivos. Vamos lá.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Contagem Regressiva
Permanece camuflado em mim, um rascunho do que sou agora, uma das primeiras peças do quebra-cabeça antes do dia em que resolveram usá-lo e dividi-lo em várias partes. Tão ingênuo, sonhador e confiante quanto iludido, não passa de matéria prima ultrapassada. Porém, ignora sua suposta efemeridade, assombrando até os últimos números dessa contagem regressiva com o seu eco ensurdecedor.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Teu
Meu amor por ti não existe, pois deixou de ser meu faz tempo para agora ser todo teu e de mais ninguém. Só me resta senti-lo por ti por telepatia como um sexto sentido compartido e bastante aguçado. Sei que já tiveste outros antes e que pode até vir a ter mais alguns no futuro, mas meu amor terás enquanto o universo continuar se expandindo só para poder abrigá-lo.
O amor autêntico não é algo que alguém nos faz sentir, mas sim algo que sentimos por alguém.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Edredon azul amassado
Não que não tenha visto também as unhas antes, ou mesmo o pé inteiro, mas lembrar das suas cores seria tão absurdo quanto lembrar do brinco que ela tirou antes de se esconder lá embaixo. Sei que elas não são azuis. Nem amassadas. Apenas se ocupam em amassar aquele azul ainda mais, revelando na extremidade oposta alguns fios do cabelo castanho cujo corte jamais notei. Ou foi uma pintura? Não lembro ao certo, mas parecem mesmo um tanto amassados agora... Minha vista viaja pelos contornos do edredon, se demorando mais que o normal em cada parada para trapacear a escuridão. Se eu fosse um pintor, copiaria cada ausência de contraste que vejo agora, cada falta de detalhe e cada defeito dessa cena, incluindo os meus próprios, já que sequer saberia que cores usar. Mas ao invés de um pintor sem tintas, me contento em ser um escritor sem palavras.
Quando o dia amanhecer, continuarei sem lembrar de que cor são aquelas unhas ou perceber o corte do cabelo, pois lembro melhor da cor e da textura do edredon azul amassado que no escuro continua a ser azul e amassado. Dela recordo apenas da respiração lenta e pausada, do brilho que os olhos emanam mesmo quando fechados, dos pés se esfregando um no outro a qualquer barulhinho ou antes de cada mudança de posição, das batidas do seu coração ecoando pelo colchão quando deitada de bruços e do progressivo distanciamento entre sua cabeça e o travesseiro ao longo da noite.
Ao acordar, ela vai trocar de lado e puxar o azul e já bastante amassado edredon em sua direção e cobrir o rosto até se conformar com a idéia de levantar. A respiração vai acelerar, os olhos vão brilhar mesmo ainda sendo esfregados, os pés vão tocar hesitantes o chão frio e as batidas do seu coração vão ecoar em mim durante um abraço de bom dia. Não é por não ter tintas ou palavras que deixo de ter sentimentos e nem ela, mesmo coberta, deixa de ser linda.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Dor
Se descubro quem a levou até mim, levo de volta e juntos tentamos deixá-la no meio do caminho. Mas se há uma distância que torna esse caminho demasiado tortuoso, sequer a devolvo e sou capaz de guardá-la comigo como uma dor de estimação, por um mero acesso de medo de perdê-la.
A dor é um trote sentimental; e eu, remetente e destinatário. É um fogo cruzado diante do espelho. Não é o oposto do prazer, e sim sua causa e conseqüência. Mas repito: nunca será só minha a não ser se causada por mim e para mim.