quinta-feira, 10 de junho de 2010

Engordando dicionários

- Eu não saberia lhe descrever. Sequer seria capaz de lhe inventar. É como quando alguém lhe pega de surpresa, tão de surpresa que você chega a pensar que nem sabia ser possível existir alguém daquele jeito no mundo, tão banal nas suas fantasias e tão raro fora delas. Meu susto não passou e ainda me surpreendo com cada dente do seu sorriso, cada movimento do seu olhar, cada gemido do seu sexo. Seja o que for que exista entre seus pêlos e seu corpo, deve ser a mesma coisa que existe entre seus pêlos e os meus. Ainda não saberia descrever, nem dizer o que é exatamente. Acho que quando não se sabe prestar tais satisfações, aí sim, estamos diante de uma novidade realmente empolgante, que ainda não tem nome porque ninguém descobriu além de nós.

- Tentar lhe definir seria como tentar definir o amor. E quero definir o amor na sentença mais extensa e prolixa que puder, que me custe a vida inteira até eu enfim terminar de proferi-la, o último pulsar do meu coração como ponto final. E quando dicionários forem impressos com mil páginas só para a letra A, espero que um dos sinônimos, o mais extenso e prolixo de todos, seja criado por você.





quinta-feira, 29 de abril de 2010

Castelo de areia molhada

Como gosto de você, minha querida. Seu cabelo escuro tinindo tão claro sob o sol e também sob ele o cheiro de praia que a pele exala. A praia que tem o cheiro da sua pele e eu, que rolo pela areia como um grão sorridente e debilóide que o vento leva e o mar traz. Para onde nós vamos depois daqui? Como nós vamos? Pés pela calçada, pneus pela estrada, ondas pelo oceano, mãos dadas pelo pensamento? Para onde vamos depois daqui?

Me dê suas mãos, que lhe dou meu coração. Me dê um tempo, que lhe dou a eternidade. É tudo chantagem apaixonada, mas ainda tenho aquele beijo que você me deu e nunca devolvi. Vem, vou te levar pra passear nas ruínas do meu castelo de areia. Deixo você brincar com os cardumes adestrados e escolher o búzio que achar mais bonito para levar para... para onde vamos mesmo depois daqui? Na verdade, não me importo, desde que sejam quatro as pegadas pela areia.

Se chover e o sol não mais queimar seu cheiro ou tingir seu cabelo, sei que esse charme todo, doce que é, vai derreter. Você vai mudar, que eu sei. Como gosto de você, minha querida, mas pode mudar. As pessoas mudam vida afora e se você não mudasse, não seria uma pessoa, não seria essa pessoa. Mude se quiser, mude na incansável busca de se parecer consigo mesma. Sinta-se à vontade. O importante é sentir-se. Eu também mudaria tudo por você, menos a mim. Para onde vamos depois? Seremos os mesmos lá ou seremos outros aqui? Para onde vamos depois daqui?





sábado, 27 de março de 2010

Guardanapo

É um chinelo sem par no meio da rua, é a sombra esguia que dobra a esquina, é a praça deserta tomando banho de chuva. É o triunfo solitário da trapaça jamais descoberta, o medo necessário de ser desnecessário, o travesseiro de pregos sobre a cama em chamas. É uma coceira na ponta dos dedos, é um espirro de olhos abertos, é uma ferida nômade. É a lágrima seca, a garganta molhada, o pulmão turvo e a veia de sempre. É o peito vazio.

É o talvez, é o será, é o poder, é o pudor, é a dor. É o vento lascivo que acaricia sem cortejar, é o sussurro da brisa espalhando segredos torpes, é um pêlo que se arrepia sozinho e envergonhado no meio do braço. É a agonia de dizer, é o pavor de escutar, é a paciência de uma folha de papel. É a eternidade discreta que habita as coisas, tudo que passa, tudo que é descartável. É a obra-prima num guardanapo, é a boca suja.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Dormência

A dormência causada pelo soco funcionava melhor do que qualquer força de vontade no sentido de superar a dor. Afinal, era uma mera questão de permuta: golpe antes, anestesia depois. Economiza-se agulhas.
***

I.
O relógio de parede marcava duas horas e quinze minutos, pelo que ele pôde deduzir sem muita certeza em meio à escuridão do seu quarto àquela hora. À noite o som do tique-taque se tornava mais evidente que durante o resto do dia, como se todos tivessem ido dormir menos o tempo, que nunca aprendera a cochichar. Irremediavelmente molestado pelo barulho, sentou na beira da cama que, em resposta ao movimento brusco sobre si, resmungou com um rangido, mas sem acordar. Eram portanto só ele e o tempo naquela madrugada sem fim, pelo menos até que um deles o declarasse.

Ao se dar conta de que as roupas da noite anterior ainda o vestiam, desabotoou os dois botões da camisa que insistiam em permanecer cumprindo sua função, mas não a tirou. Arrancou os tênis sem desamarrá-los, mas manteve as meias, assim como as calças, pois o trabalho que teria ao se levantar para tirá-las não compensaria. Deitou outra vez, mas sem dormir.
***

O par de luvas vermelhas de repente se transformou num exército rubro especialmente treinado para deixar seu rosto igualmente vermelho. Já se sentia roxo quando o homem de blusa listrada interveio. Sentou, cuspiu, bebeu, cuspiu, ouviu o homem de boina, levantou. Seu exército não foi junto e precisou encarar o outro sozinho com apenas duas de suas luvas. Estava vermelho.
***

II.
Piscou os olhos e, ao abri-los novamente e olhar para o relógio, a madrugada lhe saudava de braços abertos às três horas e quarenta e cinco minutos. Sentou na beira da cama e apoiou o queixo sobre uma das mãos enquanto olhava para aqueles ponteiros barulhentos como se fossem as pernas do tempo. Quem sabe assistir a tão monótono espetáculo pudesse fazê-lo dormir novamente... Observando a madrugada desfilar, pensou no quão sórdido era aquilo tudo. Queria dormir naquele momento, mas não podia. Quando acordasse, em compensação, aí sim teria sono. Sono não, vontade de dormir. A possibilidade de que tivesse um sono para si só começaria a se tornar concreta quando a noite lhe acenasse com um dos braços na noite seguinte, às nove e cinco.

"Sinto sono ao acordar e disposição ao ir para a cama", disse ou pensou em dizer enquanto fazia uma careta como a de alguém que descobre um segredo terrível sobre outra pessoa. Talvez sono fosse como sexo, que tem quem pense que quanto mais clandestino melhor. Lembrou de cada aula que perdeu com o rosto grudado à carteira, cada atraso que programou debaixo daquele mesmo lençol no qual estava sentado, cada telefone que deixou tocar, cada campainha que deixou de atender, cada desculpa que arquitetou dentro das pálpebras. Não haveria masturbação para aquilo e talvez por isso se empenhasse mais arduamente em realizar os anseios do sono que os da libido. E subitamente pervertido pelo sono, se deixou despejar sobre o colchão mais uma vez.

***

As cordas do ringue lhe amparavam o corpo, como se permanecer de pé fosse menos doloroso. Bem intencionadas, mas burras como cordas, insistiam em jogá-lo nos punhos agitados do adversário. Queria cair, mas não conseguia. Corda, soco, corda, soco. Tontura. Soco. Não. Eram as cordas. Queria cair, mas não sabia para que lado ficava o chão.
***
III.
Sobressalto. Após observar a vertigem fugir e o mundo, pego desprevenido, recuperar desajeitado a nitidez, deparou-se com a madrugada bêbada e cambaleante no relógio às cinco da manhã. Dali a uma hora e meia ela enfim recolheria os ombros e se abaixaria como um ator ao fim de uma peça, ovacionado pelo público enquanto fecham-se as cortinas. Ele, por sua vez, abriria as suas e começaria a desempenhar seu papel. Mas ainda faltavam noventa minutos até que o tique-taque não pudesse mais ser ouvido em meio a tudo que também não poderia ser ouvido. Um jogo de futebol até que botões e cadarços voltassem a ser moda. Uma hora e meia até finalmente sentir que saberia valorizar um colchão.

***
Desistir ou não é irrelevante, pois quando se está derrubado, a perspectiva que se tem das coisas muda. Perde-se a dignidade, ganha-se uma meta. Ele era o único com uma meta ali. Ouvia números cada vez mais baixos enquanto reunia forças para interromper a sequencia. Já sabia para que lado ficava o chão e descobriu que nele teria que se apoiar para sobrepujar a gravidade. Sentia dor a cada contato com o solo, até convencê-lo a impulsionar seu corpo para cima. As dores, cicatrizes, hematomas, cortes e ossos quebrados estavam todos de pé.

***

IV.
Havia perdido o fim da peça estrelada pela madrugada. Às quinze para as sete, ela, já travestida de manhã, lhe oferecia uma mão para ajudá-lo a levantar. Só mais cinco minutos? Não se pede tempo ao tempo, pois ele se acha tão suficiente que, a qualquer descuido, podemos perdê-lo. Afinal, é o presente que sempre passa e, o passado, a única coisa que permanece.

Mau hálito, ramelas, cara amassada, e mau humor estavam todos de pé.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A saudade num copo d´água

Pra quê falar de saudade se posso falar de um copo d´água? Ele, vidro, transparente, cantos arredondados. A boca quase quadrada e a base quase redonda, dessas que dão a impressão de haver mais líquido ali do que realmente há. Ela, também transparente, onipresente, feita de si mesma. Tensa. Ela está nele, mas nadando em si. Se arrasta pela base, arranha os cantos, salta para o mais perto da boca que puder até despencar na base outra vez e ter ela mesma a impressão de ser mais do que realmente é.

Ele a tem e preserva cada gota reunida ali num abraço distoante de toda a sua rigidez e imobilidade. Queria poder nadar nela e não poder é sua maior frustração. Uma gota a mais e eles se entreolham enquanto ela se debate de um canto ao outro. Ele finge não ver enquanto deseja mesmo se afogar, ela finge não se afogar enquanto corre para todos os lados em busca de uma saída. Mas o abraço dele a conforta outra vez e promete que sempre haverá espaço para ela entre a boca quase quadrada e a base quase redonda. Ela promete que estará sempre ali.

Pra quê falar de solidão se posso falar de uma gota d´água? A cada nova que surge, o copo fica menor, seu abraço cada vez mais desesperado, sua base cada vez menos convincente. A água tenta sem sucesso desmanchar seus contornos, esticar as fronteiras de vidro e mostrar que ele não cumpriu sua promessa. Ele ainda quer ser parte dela, mas continua sem saber nadar. Se sente tão forasteiro quanto aquelas malditas gotas que sempre tanto o diminuíram, mas, ao contrário delas, não consegue que sejam um só. Ela se sente mais sufocada à medida que ele se sente mais encurralado.

Janela aberta, céu fechado, a chuva entra mal-educada trazendo mais dela para dentro dele, que vê sua própria promessa fugir da boca quase quadrada pra fora. Afinal, estava diminuído como jamais pensou que estaria, enquanto ela, sufocada e decepcionada, fugia transbordante de dentro dele e o deixava inundado de lágrimas. As nuvens caçoaram do seu sofrimento, mas ele sabia que se havia encontrado até uma gota d´água maior que um dilúvio, poderia ser capaz de se tornar um copo d´água maior até que uma nuvem.

Sem a chuva, ele se sentia enorme outra vez. Nadar ainda lhe era impossível, mas podia voar, como a maior das nuvens, carregar toda a água do mundo. As lágrimas haviam secado, mas um desespero mudo lhe dominava, pois, à medida que ia se sentindo cada vez maior, se sentia cada vez mais vazio.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Vinte e três

- Quantos anos você tem?
- Vinte e três.
- Vai morrer com quarenta e seis?
- Vou?
- Perguntei quantos anos você tem, não quantos anos você não tem mais.
- Às vezes sinto que vivi uns oitenta e que apenas me observo de lá, caçoando da minha saudosa juventude. Noutras, tenho treze e me envergonho do fragmento de multidão que me tornei.
- E nesse momento?
- Nesse momento sou a memória vigorosa do velho vagaroso no andador e a decadência do menino que escondeu sua dentadura. Também observo os dois.
- Mas viver não é só contemplar! Você se multiplica por três para justificar não ser nenhum, não vê como é tolo isso?
- Viver sem ser tolo é impossível. O menino de treze pregou uma peça no velho de oitenta por considerá-lo o quê? Tolo! E o que ele acha da minha calça comprida, da minha carteira assinada e da minha rubrica indecifrável? Tudo tolice, por mais que minha independência e a experiência do velhote provoquem nele certa admiração. Agora, se você me perguntar o que acho desse fedelho, minha resposta vai ser a mesma, e assim por diante. De qualquer ângulo, sou um tolo admirável, pelo menos para mim. E orgulhar esses dois me consome muito.
- Eu acho que você tem vergonha de si mesmo, daí todo esse auto-deboche-sabotagem que te habita. Você nunca foi um velho de oitenta e mal lembra de ter sido um moleque de treze. Pra mim, você é um velho moleque de vinte e três que sente por si toda a repulsa e apreço do mundo ao mesmo tempo, mas que não sabe lidar com isso.
- Fala como se eu tivesse culpa...
- E tem, sabe que tem. Até porque não pode transferir essa culpa pra mais ninguém. Ao invés disso, transfere pra esses alteregos aí, que jamais ousariam lhe desmentir.
- Culpa de quê mesmo?
- De atrofiar a alma, rapaz!
- Mas ainda tenho muitos anos...
- Mesmo tendo tão poucos?


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O colecionador de máscaras

"A primeira coisa que você tem que saber é que ninguém coloca uma máscara no rosto pra se esconder", o velho explicou enquanto abria duas das portas de vidro do enorme armário que ocupava toda a parede de sua sala. Dali, tirou com cuidado desproporcional uma máscara que mais parecia uma venda, a não ser pelo fato de ter um buraco aberto para cada olho. Ainda de frente para o armário, prosseguiu, enquanto experimentava o disfarce: "Com uma dessas você poderia ser desde um criminoso até um super-herói, não concorda? Só depende de como você quer ser visto. E se quer ser visto, imagino que seja porque não quer se esconder. Se quisesse, não colocaria uma coisa dessas na cara".

Tirou a máscara, ajeitou desleixadamente os longos cabelos que emolduravam sua calvície e pôs-se a engomá-la na tábua posicionada logo ao lado do armário. "Não muito quente e com pouca força, que esse tecido é fino. O último que alugou trouxe a coitada de volta tão amassada que, quando vi, pensei que ela estivesse chorando, vê se pode!", e pendurou-a novamente no armário, ao lado de uma de lobisomem e outra de Lua. "Olha só essa", disse enquanto pegava a segunda. "Se eu te disser 'Ei, vai lá e faz uma máscara de Lua pra mim que eu quero ir fantasiado de Lua pra uma festa', você vai fazer uma parecida com essa, que eu sei. É minguante, né? Crescente, sei lá. E até se pedir pra uma criança desenhar uma lua, ela também vai fazer essa coisa parecida com a letra C. Sabe por quê?". O velho atravessou a sala com a máscara posta e abriu a janela, deixando a noite entrar. "Porque ninguém quer saber dela!", disse enquanto apontava para a lua cheia que flutuava no céu aquela noite, apresentando-a como se fosse uma aberração óbvia e indiscutível.

"Ninguém quer saber de tudo, nem ver tudo. Ninguém quer usar uma máscara de lua cheia, porque aquilo nem parece uma lua e dane-se o fato de que ela na verdade nunca seca. Aquilo não é uma lua, isso é!", e apontou para a máscara que mantinha no rosto. Voltou ao armário, guardou sua lua no lugar de onde a tirou e dessa vez pegou a que estava pendurada logo ao lado. "Agora, se não se importa, vou aproveitar essa noite de lua cheia pra virar um lobisomem, tudo bem?".

Sentado à beira da janela, se deixava ser contemplado pelos transeuntes, intrigados pela cena pouco convencional que aquele lobisomem lhes proporcionava. "A segunda coisa que você tem que saber é que não se conhece uma pessoa pelo que ela mostra, e sim pelo que ela esconde", explicou com a voz levemente abafada pela máscara que lhe tapava a boca. "Se somos capazes de esconder até a lua quase toda só pra pensar que ela é mais caprichada do que realmente é, é porque treinamos antes em nós mesmos para que pensem que somos mais crescentes, minguantes ou o que seja. É como se fôssemos todos luas cheias disputando um lugar ao sol".

Fechou a janela, tirou a máscara, devolveu ao armário. "Agora vê se escolhe logo alguma aí que eu já tô querendo fechar".

domingo, 20 de setembro de 2009

Ao vivo

Estamos ao vivo. Vamos lá, só eu e você. Pensando bem, não sei. Alguém se aproximou do quarto em que estou e escondi essa linha. Disfarcei, fingi que estava fazendo outra coisa. Pra ser bem sincero, fingi que não estava fazendo nada. Até o ócio e a inércia me parecem menos embaraçosos do que estar aqui, fazendo isso. Você é só minha imaginação e eu cá no meu espelho imaginário me vejo conversando com minha imaginação imaginária. E se o espelho quebrasse, você perguntou? Então devo ter sido eu. Bem, se o espelho quebrasse, seriam milhares de cacos imaginários espalhados pelo chão. E eu não saberia qual desses cacos seria meu reflexo mais fiel. Estaria esparramado por aí, sem saber onde começo nem onde termino.

Orgulhamos egos, magoamos sorrisos, caímos, levantamos, perdemos migalhas de pão pelo caminho, vimos o mundo por um filtro de grades, vimos o mundo sem filtro nenhum e não sabemos como foi pior. Despistamos nossas sombras, mordemos panos, levamos choques e ainda existe uma alfândega entre nós. Não entenderam o que explicamos nem entendemos o que nos explicaram. Talvez o espelho já esteja quebrado e os cacos recolhidos, amontoados uns sobre os outros como se fossem uma coisa só. Como se fossem uma coisa só e não se refletissem contradizendo uns aos outros no meio dessa multidão solitária. Se somos uma casa de espelhos mal-assombrada? Acho que sim. E acho que somos nós que a assombramos.

Sim, entendo que o espelho é imaginário, assim como você. Mas estamos ao vivo, não há tempo para nos fantasiarmos de reais. Se o espelho não existe, então quem é aquele sujeito tão familiar refletido nele? Você é a imaginação imaginária de um eu imaginário, se conforme de uma vez por todas com isso. E com o fato de estarmos ao vivo e sem migalhas para marcar o caminho de volta. Ao invés disso, só temos cacos de vidro e não queremos voltar pisando sobre eles enquanto refletem a dor em nossos pés. É o espelho a se vingar, imaginário uma ova. Só podemos ir em frente, desgovernados, escrevendo e desenhando coisas na parede do quarto sem a disposição para jamais pintá-la de novo. O bom é lembrar, o ruim é do quê.

E quando você for embora, favor deixar uma lembrança qualquer, um recado disforme e cheio de rasuras na parede, para que eu possa ficar imaginando como ele foi parar ali e quem o deixou. E assim vai restar um caco seu no meio dos meus intermináveis e incomeçáveis.

Estamos vivos. Vamos lá.


quinta-feira, 30 de julho de 2009

Contagem Regressiva

Ele ainda está aqui; adormecido, inerte, prestes a explodir a qualquer momento ou a desaparecer discretamente em meio à vastidão do jamais. Enfim, ele ainda respira o sopro de vida que lhe foi dado, embora já não o faça tão ofegante e cheio de receios, tal qual outrora. É apenas mais um número desse espetáculo, dessa contagem regressiva. Um número que já foi contado e deixado para trás, mas cuja intensidade permenece em minha mente, produzindo um eco que torna a contagem um pouco mais lenta, talvez mais dolorosa também. Mas o que é o prazer senão uma dor bastarda?

Permanece camuflado em mim, um rascunho do que sou agora, uma das primeiras peças do quebra-cabeça antes do dia em que resolveram usá-lo e dividi-lo em várias partes. Tão ingênuo, sonhador e confiante quanto iludido, não passa de matéria prima ultrapassada. Porém, ignora sua suposta efemeridade, assombrando até os últimos números dessa contagem regressiva com o seu eco ensurdecedor.

..e ele brinca com a imortalidade enquanto apaga as oito velas cravadas no bolo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Teu

Meu amor por ti não existe, pois deixou de ser meu faz tempo para agora ser todo teu e de mais ninguém. Só me resta senti-lo por ti por telepatia como um sexto sentido compartido e bastante aguçado. Sei que já tiveste outros antes e que pode até vir a ter mais alguns no futuro, mas meu amor terás enquanto o universo continuar se expandindo só para poder abrigá-lo.

O amor autêntico não é algo que alguém nos faz sentir, mas sim algo que sentimos por alguém.



segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Edredon azul amassado

Sentado ao lado da cama, procuro um espaço para mim junto ao edredon que, azul e amassado ao longo dela, move-se vez por outra revelando numa das extremidades três unhas de pé pintadas. De que cor, não posso saber. O escuro do quarto me esconde quase tantos segredos quanto o azul do edredon, do qual só tenho conhecimento por já tê-lo visto antes à luz do dia.

Não que não tenha visto também as unhas antes, ou mesmo o pé inteiro, mas lembrar das suas cores seria tão absurdo quanto lembrar do brinco que ela tirou antes de se esconder lá embaixo. Sei que elas não são azuis. Nem amassadas. Apenas se ocupam em amassar aquele azul ainda mais, revelando na extremidade oposta alguns fios do cabelo castanho cujo corte jamais notei. Ou foi uma pintura? Não lembro ao certo, mas parecem mesmo um tanto amassados agora... Minha vista viaja pelos contornos do edredon, se demorando mais que o normal em cada parada para trapacear a escuridão. Se eu fosse um pintor, copiaria cada ausência de contraste que vejo agora, cada falta de detalhe e cada defeito dessa cena, incluindo os meus próprios, já que sequer saberia que cores usar. Mas ao invés de um pintor sem tintas, me contento em ser um escritor sem palavras.

Quando o dia amanhecer, continuarei sem lembrar de que cor são aquelas unhas ou perceber o corte do cabelo, pois lembro melhor da cor e da textura do edredon azul amassado que no escuro continua a ser azul e amassado. Dela recordo apenas da respiração lenta e pausada, do brilho que os olhos emanam mesmo quando fechados, dos pés se esfregando um no outro a qualquer barulhinho ou antes de cada mudança de posição, das batidas do seu coração ecoando pelo colchão quando deitada de bruços e do progressivo distanciamento entre sua cabeça e o travesseiro ao longo da noite.

Ao acordar, ela vai trocar de lado e puxar o azul e já bastante amassado edredon em sua direção e cobrir o rosto até se conformar com a idéia de levantar. A respiração vai acelerar, os olhos vão brilhar mesmo ainda sendo esfregados, os pés vão tocar hesitantes o chão frio e as batidas do seu coração vão ecoar em mim durante um abraço de bom dia. Não é por não ter tintas ou palavras que deixo de ter sentimentos e nem ela, mesmo coberta, deixa de ser linda.


sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Dor

Ela vem de fora, sentimento forasteiro que invade e saqueia cada pedaço e pensamento. Pode estar em mim, mas não é minha; pode me possuir, mas não a possuo. E por ser de outro lugar, causa estranhamento no meu quando se hospeda sem fazer questão de hospitalidade. Faço as vezes de anfitrião sem rosto: não estou para ela, nem existo para ela! É ao anular minha face e minha presença que começamos a nos misturar até formarmos um híbrido. Sei que está ali, mas não a encontro para poder mostrar a saída. E em algum lugar no meio desse labirinto está eu, seja eu quem for ou quem era.

Se descubro quem a levou até mim, levo de volta e juntos tentamos deixá-la no meio do caminho. Mas se há uma distância que torna esse caminho demasiado tortuoso, sequer a devolvo e sou capaz de guardá-la comigo como uma dor de estimação, por um mero acesso de medo de perdê-la.

A dor é um trote sentimental; e eu, remetente e destinatário. É um fogo cruzado diante do espelho. Não é o oposto do prazer, e sim sua causa e conseqüência. Mas repito: nunca será só minha a não ser se causada por mim e para mim.